"Escrevo-te esta carta não por vaidade, mas que vez ou outra uma saudade imensa invade e inunda meu peito. Soube que mudaste de casa, queria muito saber o porque, adorava aquela varanda na qual víamos o tempo passar devagar. E sua mãe, como tem passado? Da última vez que a vi estava tão doente, e dizia que estávamos cometendo o maior erro de nossas vidas. Nunca esquecerei das palavras de Dona Emília: ‘Vocês não sabem a encrenca que se meteram. Não se nega amor, não se finge não amar alguém. Recusar esse sentimento dentro do peito é como recusar a cura de um câncer.’ Lembro-me que saíste daquele quarto de hospital chorando, e quando hesitei em procurá-la você me disse ‘não se atreva mais em me procurar’. E cá estou eu, diante de uma escrivaninha iluminada por velas, um papel e um tinteiro. Mas o que prevalece aqui são as lágrimas. Lágrimas estas que não hesito em derramar por ti, tampouco pelo o que vivemos, ou deixamos de viver. Preciso que me mande teu endereço, pois tens uma coisa minha que me é de total interesse vital. Tens meu coração, quando posso ir aí para buscá-lo?"
— Porto Alegre, 1885.