"Eu nem sabia rimar quando as minhas palavras sentiram necessidade de se eternizarem no papel. Minhas mãos eram trêmulas, como as do meu avô. Talvez por achar a minha alma mais velha que a dele, o meu corpo, mesmo sem querer, o imitava. Mas eu só tinha dezoito - pelo menos era assim que trazia escrito a minha certidão de nascimento, e eu ainda não conhecia tantas palavras. Meu forte sempre foi o silêncio. Nas margens do meu caderno, vários rabiscos daquilo que se passava na minha mente quando eu perdia o foco, ou enquanto eu tentava buscar palavras que tivessem um significado próximo ao peso das minhas lágrimas. Quase sempre em vão, por isso eu sempre tinha um pouco para chorar antes de dormir. Como eu morava com os meus avós, que tinham a audição desgastada por causa do tempo, nem precisava chorar em silêncio. Era rotineiro: palavras no papel, ou lágrimas no travesseiro. Alguns anos se passaram, conheci algumas palavras e esqueci outras - eram pequenas demais para o tamanho do que eu sentia. Hoje moro sozinho, e o meu primeiro caderno permanece na casa dos meus avós, no meu armário, na última gaveta, trancada. Não sei se tenho coragem de ler, e então perceber que eu era mais feliz quando chorava."
— Deprimentes.